| Sumario: | Na passagem do latim para as línguas românicas, sequências de consoantes adjacentes formadas por obstruintes (C1C2) no interior de palavras foram modificadas por meio de três processos fonológicos: vocalização (lacte > leite, palpare > poupar), assimilação (factu > fatto, domnu > dono) e apagamento (pigmenta > pimenta, subterrare > soterrar). Esses processos criaram novos elementos nas línguas, como o ditongo “ei” no português (conceptu > conceito, regnu > reino, factu > feito), o ditongo “ui”, no francês (fructa > fruit). No italiano, houve o surgimento de geminadas (fructa > frutta, septe > sette) e, no espanhol, a criação de africadas (strictu > estrecho), entre outros casos. A instabilidade das CC parece estar operante nos dias atuais. No espanhol chileno falado, há casos de semivocalização, como em “adquirir/a[j]quirir” e “absurdo/a[w]surdo”. No espanhol peninsular do centro-norte, há fricatização de oclusivas sonoras, como em “ritmo/ri[T]mo”, por exemplo. No português, há casos de variação entre presença e ausência da consoante C1, dicionarizados atualmente, como “respectiva~respetiva”, por exemplo, e de situações, na língua falada, de aplicação de uma epêntese vocálica, separando as duas consoantes em diferentes sílabas (rá.pi.to). A história do português mostra que o processo de simplificação de CC não agiu uniformemente em todas as palavras. Algumas dessas mantiveram a sequência de consoantes, como em “óbvio”, “técnica”, “admirar”, “amnésia”, “afta” etc. Outras perderam a primeira consoante da sequência, como em sinal (signale) e em fato (factum), por exemplo. Apesar de algumas dessas consoantes desaparecerem na forma primitiva, mantiveram-se em palavras derivadas, como é o caso de pigmentação. Na história da língua, registram-se variações de grafia de palavras com a presença e a ausência dessas consoantes, evidenciando flutuações e instabilidade. Casos como “assignatura~assinatura”. “subtil~sutil” e “corrupto~corruto”, entre outros, são comuns na escrita do português desde muitos anos. Com base na associação entre o exame grafológico em jornais do século XIX, produzidos no Brasil, em análises de sequências de obstruintes na teoria fonológica e no uso destas na língua falada, este trabalho procurará observar que sequência de obstruinte medial é mais produtiva e se a permanência dessa sequência encontra algum respaldo na estrutura fonológica do português brasileiro. Os resultados mostram que diferentes sincronias (passado e presente) e abordagens de estudo da língua (escrita e falada) podem se coadunar para explicarem formas variáveis na língua, conforme os pressupostos metodológicos da Sociolinguística Quantitativa e da Teoria Fonológica.
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