Correntes ancestrais: os pretos-velhos do Rosário

Complexa e abundante em possibilidades de conformação, a possessão umbandista possui suas margens estabelecidas por alguns tipos de personagens retirados da experiência histórica e da memória coletiva brasileira. Essas categorias organizam dizeres a partir de perspectivas enunciativas próprias, posi...

Descripción completa

Detalles Bibliográficos
Autor: Dias, Rafael de Nuzzi
Tipo de recurso: tesis de maestría
Estado:Versión publicada
Fecha de publicación:2011
País:Brasil
Institución:Universidade de São Paulo (USP)
Repositorio:Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP
Idioma:portugués
OAI Identifier:oai:teses.usp.br:tde-07082011-105621
Acceso en línea:http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/59/59137/tde-07082011-105621/
Access Level:acceso abierto
Palabra clave:alteridade
ethnopsychology
etnopsicologia
otherness.
preto-velho
umbanda
Descripción
Sumario:Complexa e abundante em possibilidades de conformação, a possessão umbandista possui suas margens estabelecidas por alguns tipos de personagens retirados da experiência histórica e da memória coletiva brasileira. Essas categorias organizam dizeres a partir de perspectivas enunciativas próprias, posições simbolicamente articuladas com potencial para produzir determinados sentidos. Nesse ínterim, o preto-velho emerge como entidade espiritual proeminente, recorrente presença no quadro da religiosidade afro-brasileira, sobretudo da umbanda. Afinado com o renovado interesse científico pelo tema nas últimas décadas, o presente estudo objetivou investigar o universo simbólico da categoria espiritual preto-velho, e desvendar significados e alcances dos seus usos rituais e etnopsicológicos na religiosidade umbandista. Para tanto, foi desenvolvido trabalho de campo em quatro terreiros de umbanda da região de Ribeirão Preto-SP, tendo sido um deles, o Terreiro de Umbanda Pai José do Rosário, escolhido como caso-modelo para a apresentação dos resultados e análises. O trabalho de campo foi desenvolvido a partir de uma abordagem do fenômeno pela via da escuta participante, refinamento do método da observação participante concebido pelo aporte da escuta psicanalítica lacaniana que, tomada como ferramenta heurística, permite recuperar e acessar sentidos sutis ocultos nos rituais e nas narrativas dos sujeitos inerentes à possessão. Além disso, foram feitas entrevistas semiestruturadas com médiuns desincorporados e incorporados por seus pretos-velhos. As análises dos dados foram realizadas com base na psicanálise lacaniana, sobretudo no que tange à noção de um inconsciente semiótica e socialmente estruturado, com vistas a perscrutar a dimensão histórica e coletiva do sujeito a partir de seus atos executados diante de um pesquisador transferencialmente implicado. Entidades mobilizadoras de um vasto repertório de símbolos cujo potencial abrange múltiplos desdobramentos semânticos, os pretos-velhos revelaram-se entidades complexas, capazes de assumir várias conformações distintas a partir de suas referências essenciais enquanto escravos e ancestrais. Etnopsicologicamente, os pretos-velhos mostraram-se espíritos fundamentalmente mediadores e integradores, subsidiando articulações e processos diacrônicos de significância entre passado e presente; vida e morte; adolescência e vida adulta; emoção e razão; corpo e espírito; ação e consequência. Em suma, os pretos-velhos são, no nível das vivências religiosas dos adeptos umbandistas, a mais contundente manifestação daquilo que em psicanálise implica o processo de assunção do desejo do Outro como desejo próprio, característico da conciliação do homem com seu próprio inconsciente, consubstanciado em marcas de filiação e pertencimento contidas na tradição e na cultura de seu povo. Convocam o ser vivente, enfim, a assumir seus inalienáveis, porque fundantes, direitos e deveres enquanto elo de uma corrente ancestral.